Sunday, July 30, 2006

Dona Bárbara.

chegou em casa
atirou a bolsa sobre a mesa
afundou-se no sofá florido de sua mãe.
Olhou para seus pés agora sem seus all star vermelho-sangue.
Não podia nem se lembrar da última vez,
que tinha andado pelo shopping até seus pés sangrarem,
literalmente.
Fechou os olhos e jogou sua cabeça para trás.
Sentia o sangue dançando flamenco pelas suas veias,
testemunhando essa nova fase.
Respirava tão fundo que parecia que seus pulmões não iam mais aguentar, e estourariam.
(Como numa piada ruim sobre pintinhos sem cú)
depois soltava o ar lentamente,
indo para uma terceira dimensão só dela.
No dia seguinte ia se recusar a ir numa feijoada com a família.
Ia pintar suas unhas de renda.
Ia usar sua saia preferida e seu bolero de linho.
caminharia pelas ruas vazias com seu all star branco imundo,
gritaria até ficar rouca, ia rir se lembrando de momentos não tão engraçados.
ia cravar suas unhas recém pintadas em alguém que não iria se importar.
ia chorar se tivesse vontade, ia sentir o vento cortando seu rosto,
ia morrer de frio, ia tomar sorvete de coco com ovomaltine no inverno.
Ia pular corda.
Ia sentir o coração tomando lugar entre seus rins,
dançando pelo ar,
um momento só dela, um momento único,
ela única diante do mundo.
Chegou a hora de escrever a sua história.
Sem olhar para tras, sem ter medo, sem se prender.
cortada a liberdade que te prendia, é hora de seguir.
Para daqui a cinquenta anos ter o que contar para seus netos.
E ela se deixava sangrar.
Sangrava sem se importar.
Sangrava a vida inteira que estivera deixando passar.
Agora que sua alma se cobria de um luxo radioso de sensações,
não conseguia mais se conter.
Descobrira que a vida é um conto de fadas grande demais para fingir.
Era só ela, Bárbara.
Dona Bárbara comum, toda nova.
Contra um mundo que nunca vai deixar de ser o mesmo.
E ela ria. Sozinha. Ria demais.
Por saber que vocês jamais entenderiam
o sentimento entre essas insanas linhas.

Friday, July 21, 2006

de tudo que não vivi

eu não quero reviver o que já passou,
mas não aguento mais esperar...
Sinto falta de abraços, de sonhos infantis,
falta um sorriso amigo,
uma conversa de madrugada sem nenhum sentido.
Falta de surtos criativos para escrever contos inúteis.
Nada tem graça se não posso dividir.
Não consigo nem pensar o que vai ser de mim...
Para onde vou ainda é incerto.
Do meu futuro só sei uma palavra: cinema.
Dizem que eu reclamo sem motivo.
Afinal, o doce só é mais doce porque o amargo existe...
Sentada sozinha conversando com minhas paredes azuis,
com a janela aberta o frio me corta a alma,
e a brisa só traz mais e mais saudade...
de tudo que eu não vivi.

Sunday, July 16, 2006

eu.

Eu sou vento, chuva, fogo e mar.
Sou olhos, coração e mãos,
fotografias em sépia e filmes nunca vistos,
utopia transborda em minhas veias,
Sou inconstância e incômodo.
Sou careta, sou desesperança.
Sou a canhota num mundo de destros,
Ando só pelos caminhos apesar de não saber andar só.
Não sei amar e amo demais. Não sei o que fazer com todo esse amor...
Sou o inexistente, a lembrança, o atraso.
Sou mágoa, maldade e feridas.
Sou o amor que acabou, um mundo imaginário,
sou todas as lembranças que você me deixou.
Sou a música repetida, o grito mudo, a garganta seca.
Sou neurótica, esquizofrênica, engenhosa e cínica.
Sou quinhentas vozes gritando ao mesmo tempo
Sou a alma lavada, sou artista.
Sou escritora, sou aquela que anda sem se mover.
Meu espírito cresceu mais do que eu, e de vez em quando eu não caibo em mim.
Sou a minimalista, estrategista de sonhos nunca alcançados.
Sou aquela que coleciona sorrisos, que aprende palavras novas e torna outras mais belas.
Sou a perfeccionista, a malabarista...
Sou eu e todo mundo. Sou quem eu amo, e não quem me ama. Sou todos...
Sou a inconveniência, a difícil de ser esquecida.
Sou eu, aquela, a comum...
Eu sou toda poesia...